fevereiro 26, 2012

Costureira.

Devoro a ti com meus olhos,
Pupilas dilatadas em êxtase,
Verdade afagada em teu zelo,
Perfume de anjo em teus cabelos!

Desejo emanado pelos poros,
Vontade acamada...
Acata-me o colo!
Sem briga e sem guarda.

Eis o meu anseio,
E para tal devaneio não possuo fármaco,
Deixo em tuas mãos minha cura,
Retraio-me em teu cerne.

Revido teus atos com valia,
Exponho-me em trapos,
Pois é o que sou,
Retalhos guardados...

"Costurados com dor...".

Rafael Nicolay

fevereiro 24, 2012

Cobertores.

Um, dois, três ou tanto faz...
O que importa é fugir do frio, meu rapaz.
Seja com o lençol ou com o cobertor
Ou seja com alguém cheio de amor.

E não importa o verso da noite
Ou o brilho do luar!
Quando o respirar é ofegante,
Pondero entre a nudez e o bailar...

Bailar de corpos ocos com almas em marte,
Olhares fixos ao outro e o resto está à parte.
Beleza pura com sutil esplendor...
Sutiã na cintura e não existe mais o pudor.

Emana o respeito em um singelo ato,
Tocando em teu seio, meu anseio de fato...
De alguma forma pleiteio este dom...
Este amar e por fim, este edredom.

"É tudo descoberto,
Debaixo das cobertas.".

Rafael Nicolay

fevereiro 22, 2012

Ciclos

Deito em ti,
Mas por ti retiro-me.
Entre a cena e o ato,
Detenho-me!

Encanto-me, mas me abstenho.
Controlo a ti por nós,
Englobo vos... Englobo tu...
Entendo entretendo.

Levanto em ti,
Deleito-me eu teu seio,
Proclamo a ti,
Recito meu receio.



Deixo em palavras visuais,
Época de "Témporas", estação carnal,
Em prol de nossa emoção, do "nós"
Sem cobertores e com o frio, neste Natal...

"Entrego-me a sós". 

Rafael Nicolay

fevereiro 20, 2012

Disparado.

Poesia em casa, na rua, no teatro.
Poesia ou poema, tanto faz!
O que importa é recitar o mais alto,
Com algo a mais, algo que bem faz.

Poesia para o metrô, biblioteca e pivô.
Algo bom e ao mesmo tempo retrô,
De tempos antigos e sem malícia,
Vidas tranquilas e promessas como dívidas.

Poesia para o centro da cidade,
Centro religioso, centro de intimidade,
Poesia para gente que canta e dança
E não tira o pé do chão enquanto a música não acabar...

Ou seria a noite? O dia?
Melancolia não me falta,
Poesia em alta para tamanha alegria,
Em poetizar e declarar...

"Poesia sem parar!".

fevereiro 16, 2012

Derivados.

O gato bebeu o leite,
O leite estava estragado.
Cadê o bicho com meu leite?
Cadê o queijo já derivado?

Onde foi parar a uva que...
Vinha com o vinho de longe,
Mas parecia triste como a viúva,
Chorando como a fruta-do-conde!

Pingo dos olhos no rio,
Pingos da chuva no chão,
Pingos do 'i' no meio-fio,
Pingos de uva na mão.

Felino de fulano escapou,
A gata do vizinho foi quem falou,
O bichano está pelas ruas, soltando pelos!
E tomara que não perca seu zelo...

"Com o prato dos outros.".

Rafael Nicolay

fevereiro 15, 2012

Jeito mulher.

Mulher que é mulher não cansa,
Não para inquieta enquanto o mundo não a desperta.
Decompõe-se em lágrimas e lástimas do passado,
Mas é perdão para todo ser que está acordado.

Talvez seja um pouco vulgar o termo,
Mas mulheres são o que há de mais belo,
Dignas de um tratamento mais do que suave,
E em um entrave qualquer ganham pelo seu esplendor.

Não sou digno de falar de criaturas sinceras e meticulosas,
Muito menos ao ponto de dizer sobre sua forma de verdade,
Posto que sinceridade diverge de verdade e que também mentem!
Mas mulher, diga-me o por quê de teu sorrir tão belo.

Não tenho como mensurar ou explicitar o que sinto,
Deveras é a forma como omito esta condição,
De estar rendido, estar no chão... Do amor.
Eis o que significam! São como flores...

São outonos com sabores simples e complicados,
Mas nunca complexos ao ver de um ser tão perplexo...
E tamanha é esta perplexidade que permite o aclamar de minha saudade,
Permuta de nostalgia... Ou talvez seja de alegria...

"Perante meus longos invernos...
De dor.".

Rafael Nicolay

fevereiro 13, 2012

Aquarela.

O lápis pintou em um papel de pão
O que o poeta escreveu a mão
E deixou o nada que ali tinha
Em cores que seu peito mantinha.

Entre o vermelho paixão e o vermelho amor,
O amarelo ouro e o azul sem cor,
Às nuvens do céu e tantas aquarelas escritas no papel...
O poeta deixou e não se lamentou.

Permitiu ao mundo que olhasse o seu tesouro,
E com tanto zelo postergou a guarda de seu ouro...
Mas aos olhos rancorosos da vida e do Homem,
Amedrontou-se pelos temores que tantos outros ali comem.

Mas como quem não sabia de nada,
Seu ouro era uma donzela pintada
Com o verde em seus pés e o azul em suas mãos,
O amarelo em suas vestes e o vermelho em seu coração...

E ali estava sua pequena princesa,
Em papel feito mar, à pequena sereia!
Por fim o mundo pôde conhecer
A essência do seu simplório poeta ao dizer

O que poucas almas falam,
O que os olhos dizem, mas as bocas calam!
O que perdura entre a frequência e a ausência da dor...
A verdade do poeta que falava de amor!

"E como dizia o poeta:
'Eu te amo, minha prosa inquieta!".

Rafael Nicolay